julho 16, 2010

Manual prático do falso erudito

Texto  by  David Mattos. 
Se você, meu amigo, minha amiga, está cansado de observar as pessoas conversando animadamente sobre os mais variados temas, e tem medo de dar sua opinião – ou ainda, sequer tens uma opinião a respeito – e parecer um perfeito idiota: SEUS PROBLEMAS ACABARAM!!!



Após ler este texto, você poderá participar de qualquer conversa sobre os principais assuntos, do culto ao popular, com extremo domínio dos temas, impressionando a todos que o cercarem, inclusive aquela loura gostosa que você está louco par comer, mas que só dá para os caras mais “cabeça” do grupo.

1 – DO TEATRO

Um dos ambientes mais “in” que existem – estrangeirismos sutis são excelentes ferramentas para parecer um verdadeiro erudito – é o teatro. Lá estarão as principais personalidades do meio artístico da sua cidade. Intelectuais extremamente renomados, famosos e influentes... somente entre eles mesmos.


Dica 1– Invente nomes esdrúxulos de grandes autores da escola artística de algum lugar que nunca ninguém visitou: “esse texto me lembra muito as obras da primeira fase de Wladmir Von Rujstfucker, da escola polonesa barroca, um tanto quanto pesado, mas bastante profundo.”



Dica 2 – Se você não entender porra nenhuma do que o texto fala, e alguém vier pedir a sua opinião, faça o seguinte, franza sua testa, ponha a mão esquerda no queixo, a direita no bolso, olhe para baixo como se estivesse formulando uma tese que vai mudar os rumos da humanidade, depois olhe para o seu interlocutor, com um olhar de quem vai fazer a revelação do terceiro segredo das crianças de Mendjugore – essa não foi inventada, para quem não lembra, são aquelas criancinhas que receberam a Nossa Senhora para tomar um chazinho – e diga com a voz inicialmente baixa, meio sussurando, e depois aumente o volume aos poucos: “o texto... bem... o texto é denso! Realmente o conteúdo é bastante denso.”



Palavras chave – Se você não entendeu nada: DENSO. Se você ficou com sono: PROFUNDO. Se você dormiu: PESADO. Se somente os intelectualóides riram das piadas que ninguém entendeu: SARCÁSTICO. Se ficou a sensação de que a peça não teve um final: INSTIGANTE. Se somente o povão riu, e os intelectualóides ficaram se segurando para não rir: ÓBVIO.



2 – DOS VINHOS



Erudito não toma, em hipótese alguma, cerveja, cachaça, vodka, caipirinha, batida e chopp. Erudito que é erudito só toma vinho.



Dica 1 – Nunca, jamais, em hipótese alguma peça ou mencione que goste de vinho suave/doce. Isso é coisa de subdesenvolvido – leia-se brasileiro. Sim, sim, o Brasil é o único lugar do mundo que fabrica e toma vinha suave. Os outros países tomam vinhos demi-sec.



Dica 2 – Decore o nome de lugares que fabricam vinhos: Borgonha, Alsácia Lorraine, Bordoux. Decore também o nome de uvas: Pinot noir (pinô noár), Chardonnay (chardonê), Shiraz (xirrá), Cabernet Souvignon (Cabernê Sáuvinhon).



Dica 3 – Quando alguém te oferecer uma taça de vinho, respeite o ritual: 1 – segure a taça pelo cabinho, jamais no copo. 2 – gire levemente a taça, a erga contra a luz e observe a cor do vinho com a testa franzida, depois emita algum ruído: “hum...” 3 – enfie o nariz dentro da taça e dê uma cafungada. Novo ruído, acompanhado de uma observação erudita: “hum... interessante, o bouquet me lembra algumas flores do leste europeu, com notas cítricas ao fundo” 4 – Dê um pequeno gole, mas não engula, deixe o vinho dentro da boca por alguns segundos, faça um biquinho e depois engula e novo ruído, seguido de uma observação um pouco maior com adjetivos contraditórios: “hum... interessante, ele é bastante encorpado, e curiosamente leve, com tanino aveludado de consistência lisa e suave, mas o sabor é forte e bem seco, apesar de adocicado.”



Dica 4 - Se alguém perguntar se você gostou, jamais tome partido. Faça um pequeno elogio ao vinho, mas com ressalvas: “É interessante, bem interessante. Mas talvez a safra não tenha sido muito favorecida, pois o sabor da uva me pareceu um pouco contido”. Deste modo, se a pessoa que te ofereceu o vinho gostar muito do vinho, você poderá se justificar, e se ela achar o vinho uma merda, você também não vai fazer feio.



Dica 5 – Compare o vinho com outro vinho que você já tenha tomado: “O vinho é bom, mas eu ainda prefiro os chilenos, do vale de Santa Apolônia” – todo vale chileno tem nome de santa. Algum entendido de verdade pode tentar te desmascarar: “mas espere um pouco, não existe nenhum vale de Santa Apolônia no Chile, você deve estar confundindo com o vale de Santa Carolina, ou Santa Helena.” NÃO PERCA O REBOLADO! Dê uma risada, olhe para outra pessoa que vai estar com cara de perdido no meio do diálogo de vocês, respire fundo e demonstre que, além de saber tudo de vinhos, você também sabe tudo de geografia e cultura sacra: “meu querido – ser carinhoso com o seu adversário demonstra sua magnitude em contraponto com a ignorância do outro – entendo o que estejas querendo dizer, mas me permita esclarecer alguns pontos: o Vale de Santa Apolônia não é muito conhecido, é verdade. Mas você pode procurar em algum atlas argentino, não os brasileiros que são invariavelmente incompletos, que você vai encontrar este vale, exatamente entre os vales de Santa Carolina e Santa Helena. Talvez você não saiba, mas as três, inclusive, eram irmãs da mesma congregação: A congregação das carmelitas vitivinicultoras. Santa Apolônia era a mais reservada das três, e também a mais nobre, assim como os vinhos da sua região, mas isso não vem ao caso.” Neste momento, o seu interlocutor vai estar meio confuso com a quantidade de informações que você vomitou em cima dele. Dê uma leve risada, e saia rápido para não dar tempo dele se refazer, colocar as idéias no lugar e te desmascarar.



Palavras chave: Quando cheirar, beber ou olhar: HUM... Se der azia: ÁCIDO. Se o gosto for estranho: TANINO MARCANTE. Cheiro: BOUQUET. Se o gosto for horrível: RETICENTE. Se você ficar bêbado com duas taças: ENCORPADO. Se você toma todas sem sentir que está tomando: AVELUDADO. Se o vinho não fede nem cheira: CONTIDO.



3 – DO FUTEBOL



Tudo bem, futebol é um assunto popular. Mas erudito que é erudito entende de tudo. Então, mesmo que você deteste futebol, não entende qual a graça de ficar vendo 22 homens correndo atrás de uma bola, você vai poder fazer comentários dignos de um Casagrande ou de um Falcão.



Dica 1 – Se você perceber que a bola não para no chão, e fica viajando de um lado para o outro do campo, parecendo ping-pong, emende o seguinte comentário: “o jogo está muito embolado pelo meio. O técnico tem que abrir os laterais para eles jogarem como ponteiros. O atacante precisa fechar pelo meio para fazer o pivô para quem vem de trás.”



Dica 2 – Se você perceber que a defesa do time está uma tragédia, que até mesmo você, que detesta futebol, faria um gol nela, mande: “o esquema está deixando a zaga descoberta, é preciso que alguém feche na meia-cancha para dar cobertura pelo meio, senão vão ficar tomando bola nas costas o temo todo!”



Dica 3 – Esquema tático é fácil, basta juntar três números que somem 10 no total: 4-4-2, 4-5-1, 3-5-2. Qual você prefere? O que o time observado não estiver utilizando.



Dica 4 – Se você for torcedor do time que estiver perdendo por pouca diferença – no máximo 2 gous (aprendi com o Millôr Fernandes que o plural de gol, é gous)-, a culpa é do juiz. Se você for torcedor do time que estiver perdendo de goleada, a culpa é do técnico.



Dica 5 - Se você quiser uma vaga de comentarista na globo, basta ser óbvio e redundante: “É Galvão, o atacante está jogando enfiado na frente. A zaga está postada atrás. O Volante está jogando um pouco mais recuado pelo meio. O meia –atacante está jogando pelo meio, mas um pouco mais avançado.”



Dica 6 - O time que estiver ganhando, é sempre infinitamente superior ao adversário. Faça um laboratório assistindo por 15 minutos o jogo do próximo domingo, e perceba os comentários. Se o jogo estiver 0 x 0, um deles terá uma leve vantagem, se em seguida o time A fizer 1 x 0, o domínio é evidente, se depois o time B virar para 2 x 1, o time B pressionou desde o início, e a vitória era só questão de tempo.






Gostou? Tem diveros textos legais dele na coluna "Mattos sem Cachorro" em: www.toputo.com.br 


2 comentários:

Lela disse...

Blog do David: http://donmattos.blogspot.com/

Don Mattos disse...

ó-lhó-lhó...

Faz meses que eu penso em fazer uma reedição deste manual, qualquer dia ela aparece lá no meu blogue.

Obrigado pela honra!